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  • Lila Mesquita

OBRIGAÇÕES

Atualizado: Abr 26

Escrevi ouvindo: Vince Guaraldi trio - Christmas time is here


Recentemente eu abri uma caixinha de perguntas no meu Instagram voltada para as pessoas que não gostavam de Natal. Quis entender quais são os motivos que afastam as pessoas dessa data que eu amo e que é tão carregada de significados.


Muita gente respondeu que não gostava de Natal por causa das obrigações: comprar presentes, cozinhar, arrumar a casa para receber um monte de gente ou estar em um lugar sem querer estar lá. Enfim, um monte de atividade que, a princípio deveria ser parte de um ritual, mas por causa do esvaziamento dos significados, se tornaram isso… meras obrigações.


A gente pode até fazer um caminho de volta até o surgimento das religiões protestantes, da firmação da liberdade da consciência individual. Da ligação entre religião e mercantilismo - quando o homem se transforma consumidor e constrói sua própria redenção.


O papo seria longo (quem sabe a gente não entra durante nosso Workshop) mas agora, estou com vontade de te falar sobre essas tais obrigações que tanto aprisionam e afastam a gente, de viver uma celebração gostosa e que faça sentido.


Pode até ser um recorte do meu Instagram (tenho a sensação que não), mas a maioria das respostas que eu recebi sobre as obrigações, vieram de mulheres. Isso só me mostra que o Natal acabou se tornando para nós, mulheres, um grande resumo do resto do ano. Uma época com ainda mais carga mental, com ainda mais horas em pé na cozinha e no final, é claro que a gente fica exausta.

Eu te pergunto: O problema é o Natal ou a construção por trás dessa data? Tá fácil de responder, né?

Uma das grandes sacadas do patriarcado é se apropriar de hábitos, tarefas e costumes que gostamos de realizar e transformar tudo isso, em mais obrigações e amarras. Fizeram isso com os nossos rituais de cuidados que passaram a servir aos padrões de beleza.


Fizeram isso com nossa habilidade de manusear plantas e alimentos e nos prenderam numa cozinha. Fizeram isso com a nossa maternidade.


Por trás de todas essas obrigações, existe a necessidade de agradar, de ser aceita, de fazer exatamente o que o outro espera que a gente faça. Quem acaba se perdendo em meio a essa dinâmica?

“Tentar ser boa, disciplinada e submissa diante do perigo interno ou externo, ou a fim de esconder uma situação crítica psíquica ou no mundo objetivo, elimina a alma da mulher”, diz Clarissa Pinkola na nossa Bíblia, Mulheres que correm com os lobos.


Antes de propor ou realizar uma revolução, olhe para dentro: quais são as inseguranças que surgem nessa época do ano e como posso cuidar delas?

Conta sua experiência. Fala que esse ano foi difícil financeiramente e que juntos, todos podem pensar em novas formas de trocar agrados.


Explica que quando você é responsável por todas as tarefas que envolvem o Natal, você acaba ficando muito cansada e não aproveita a festa. Sugira uma nova divisão que faça sentido para todos, principalmente você! Quando nós trazemos as nossas experiências e sentimentos, a chance do outro se sentir atacado é menor e as possibilidades de diálogo só aumentam.


Mas não esqueça: mudar as circunstâncias externas não mudam o fato da gente precisar ser aceita, agradável e de responder às expectativas alheias. Isso nada tem a ver com o Natal, mas sim com a ideia perversa de que nós, mulheres, estamos a serviço dos desejos dos outros. Siga firme e com amor.




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