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  • Lila Mesquita

BOAS VINDAS

Escrevi ouvindo: Caetano Veloso - Boas Vindas.


Essa semana foi cheia de chegadas e partidas, né? Me pergunto quando não é… Escrevo esse texto um dia depois do último episódio dessa temporada do Cheia de Camadas, no dia que acordei com a notícia da morte do Paulo Gustavo e da minha vacinação. Eu vou ser vacinada amanhã.


Tanta coisa ao mesmo tempo. Chegadas e despedidas.


Lembro que no ano passado eu pensei muito sobre encerramentos, sobre saber reconhecer os finais, deixar morrer o que for para morrer e viver o que for para viver. Eu só não tinha pensado ainda sobre uma coisa: o que chega quando algo vai embora.

Ir embora é abrir espaço, a gente já sabe disso… mas, ultimamente eu tenho pensado no quanto eu permito que o novo entre, se acomode, faça morada. Em alguns aspectos, eu sou bem resistente à mudanças mas sou ainda mais desconfiada ao que chega de novo. Posso colocar a culpa na minha lua em escorpião?


Não vai ter jeito, vou ter que voltar pra yoga mais uma vez, tá?? Já faz 10 dias que eu tenho feito a saudação ao sol todos os dias. Ontem eu estava um pouquinho caída mas decidi fazer mesmo assim e colocar mais atenção na fluidez dos movimentos e nem tanto no vigor e precisão. Percebi uma coisa óbvia: é uma sequência de expansão e recolhimento. Em alguns momentos a gente abre o peito para o céu e em outros para o chão. Mas o peito tá sempre aberto.


Como você tem dado boas vindas ao que chega na sua vida?


Há quase dois anos eu deixei morrer uma fase da minha vida, a minha vida em São Paulo, num lugar que eu conhecia e entendia tão bem. Me despedi de cada pedacinho daquela Lila foi lindo e doloroso na mesma medida, a tal da “morte divina”. E também faz quase dois anos que eu não me abri para o que tinha chegado. Um novo lugar, uma nova cultura, uma nova língua.


Lembro que ano passado, quando as coisas começaram a reabrir por aqui eu e o Gizinho comentamos o medo e a desconfiança de fazer coisas comuns como andar num shopping, ir a um restaurante… A gente não estava fazendo nada de errado mas dava uma sensação tão estranha. Quando eu vou fazer a Flor dormir à tarde, eu fecho a janela e tudo fica escuro. Nos primeiros minutos eu não enxergo um palmo à minha frente, é um breu total. Eu seguro ela no meu colo, danço algumas musiquinhas… e, aos poucos, eu vou começando a perceber os contornos mais claros mesmo no escuro. De repente, eu já enxergo os olhinhos fechados dela, que, num movimento oposto ao meu, acabam de aceitar o escuro dos sonhos daquela soneca.


Algumas chegadas podem ser abruptas, de repente, tudo tudo preto. Mas as nossas boas vindas fazem parte de um processo um pouquinho mais demorado. A gente olha, reconhece, pensa onde o novo pode se instalar e a opção de fazer isso enquanto dançamos me parece muito mais atrativa.


"Lhe damos as boas-vindas. Boas-vindas, boas-vindas. Venha conhecer a vida. Eu digo que ela é gostosa"



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